Uma Teoria Pessoal de Esperança e Redenção
Sabe, é possível ficar tão corrompido neste mundo que até mesmo sua própria mãe e seu próprio pai o abandonarão, e, se isso acontecer, Deus sempre acreditará nos seus próprios meios de corrigir seus próprios caminhos. — Bob Dylan
Não é novidade que boa parte do meu imaginário se encontra em poucos livros, um deles sendo Lyrics: 1961 - 2012, e em particular desde ao menos o final de 2024, tenho pensado em um tema muito específico, até demonstrado em minhas contas pessoais de redes sociais. Como no episódio “The Opposite” de Seinfeld, existe um determinado ponto da vida em que você percebe que, como o filósofo contemporâneo George Costanza fala, “todas as decisões que eu já tomei em toda a minha vida estavam erradas. Minha vida é o oposto de tudo o que eu quero que seja. Cada instinto que eu tenho, em qualquer aspecto — seja algo para vestir, algo para comer… tudo esteve errado.”
Para mim, isso foi um processo relativamente longo de 2021 até 2023, e somente em 2024 saí da letargia, tentando efetivamente mudar algo. O problema é que o orgulho subsolesco é o maior dos meus pecados, então é difícil simplesmente olhar para trás e achar que está tudo certo — como estaria tudo certo se sou o maior dos pecadores? Mas a realidade é que não sou o maior dos pecadores, não estou nem perto disso, e apenas meu orgulho que não me permite aceitar o perdão divino como ele vem.

O pior é que ficar nesse estado, quando tudo dá errado, no momento em que o céu desaba sobre nossa cabeça, quando tiramos dos olhos o véu de Maya e vemos a terrível realidade que nos cerca, existe uma tentação quase irresistível. Vem um impulso de enxergar qualquer coisa bonita como uma espécie de mentira macia, porque a realidade — falo da realidade de verdade! — é algo horrível e amargo. A realidade sobre mim, sobre meus desejos e vontades, não é diferente: eu estou enganando os outros, sou uma pessoa terrível, com desejos não de agregar, mas de destruir em um ato generalizado de vingança existencial contra meu contexto de vida. Até me identifico com o Marquês de Sade, ao questionar o “que são todas as criaturas da terra diante de um único desejo nosso?!” Sou uma pessoa terrível, não? E como seria diferente, se plantamos o que colhemos e só plantei do pior?
Meu primeiro contato com o conteúdo do bispo Robert Barron aconteceu há mais de 10 anos a esse ponto, quando um amigo católico sugeriu um vídeo dele comentando duas músicas, “Like a Rolling Stone” e “All Along the Watchtower”. A interpretação comum da primeira é de escárnio e humilhação, acidez usada meramente para atacar, o uso da verdade como uma espada. Isso tornaria a música muito impiedosa, seria chutar cachorro morto: a destinatária Miss Lonely já está na pior, para que ainda dedicar isto a ela? Mas o Bishop Barron (esse anglicismo me parece necessário, já que só ouço seu título em inglês) dá uma interpretação alternativa. Sim, é verdade que a música começa com tons acusatórios diante da nossa heroína:
Once upon a time you dressed so fine You threw the bums a dime in your prime, didn’t you? People’d call, say “Beware, doll, you’re bound to fall” And you thought they were all kidding you You used to laugh about Everybody that was hanging out Now you don’t talk so loud Now you don’t seem so proud About having to be scrounging for your next meal
Mas estaria Dylan dizendo que ela está além da redenção? Nada é tão óbvio assim.
Nossos crimes
Volta e meia penso no livro Recordação da Casa dos Mortos de Dostoiévski, onde ele conta de uma maneira ficcional as suas histórias sobre a prisão, para onde foi mandado após se envolver com o círculo revolucionário socialista. Tratando sobre a agonia da prisão e da punição burocrática, o livro, sombrio e cinzento pela esmagadora maioria das páginas, ocasionalmente joga uma gema colorida e brilhante que alimenta o leitor por mais cinquenta ou cem páginas.
Ao mesmo tempo que foi provavelmente o período mais agonizante de uma vida já difícil como a do autor russo, é possível argumentar que essas mesmas experiências que transformaram-no no escritor que foi. Pouco depois, ele publicaria Memórias do Subsolo, que marcou uma mudança em sua carreira onde o escritor parou de “se justificar a seus próprios olhos” e passou a “exorcizar seus demônios ao se encarnar em sua obra romanesca”, como René Girard coloca.
Na Casa dos Mortos, o que me saltou aos olhos inicialmente foi a diferença entre os prisioneiros que desistiam da vida e os que ainda tinham esperança. Isso não tinha nada a ver com a gravidade do crime e expectativa de saída ou sequer redenção, mas com o apego à vida. Sugiro em particular o capítulo do marido da Akoulka para entender que a consciência da gravidade da infração moral não é a única coisa a definir a postura que uma pessoa tem diante dela.
Até a necessidade de liberdade sequer era sentida no caso de Akim Akimitch. Claro, a maioria dos prisioneiros tentava provar a sua própria liberdade de maneiras autodestrutivas, escolhendo uma noite para beber até a inconsciência, só para mostrar que ainda podiam fazer isso, um pouco como o homem do subsolo ao se deparar com as bolhazinhas de felicidade. Quebrar as regras de conduta é, de fato, uma prova da sua liberdade, mas não é uma liberdade que satisfaça a alma. De que vale essa liberdade sem esperança de alguma coisa positiva e edificante em algo que realmente alivie as dores e as mágoas?
Mesmo no meio de um ambiente onde há baixíssima qualidade de vida e, só para insultar ainda mais, com um óbvio abuso de poder por parte dos carcereiros, era possível encontrar beleza. A esperança surgia em momentos de contemplação durante as dificuldades. Logo no primeiro capítulo, Dostoiévski fala de um desses casos, ao receber esmola de uma garota de uns dez anos, que veio até ele (ou até seu protagonista) como um anjo oferecer uma moeda dizendo “que Deus Nosso Senhor o ajude”. Naturalmente, o personagem aceitou a esmola e guardou o dinheiro por muito tempo em honra à memória desse belo fragmento da eternidade.
A piedade também vinha de lugares inesperados. Se o homem do subsolo era um burocrata destilando seu rancor em pessoas aleatórias, fazendo da vida delas um inferno como “vingança existencial”, às vezes aparecia também um médico bondoso que acolhiam prisioneiros “dando migué” para sair da tortura da prisão e passar alguns dias vivendo como um ser humano decente no hospital.
O corpo clínico era bondoso, dirigia aos detentos palavras amáveis e estes, rejeitados por todos, valorizavam tais atitudes por serem sinceras. Poderia ter sido diferente. Eles não iam reclamar se fossem maltratados; mas, por isso mesmo, sabiam tratar-se de puro amor ao próximo.
E esses pequenos momentos são suficientes para provar que é, sim, possível manter esperança. “Até na prisão pode-se encontrar uma vida imensa!”, já diria Príncipe Mishkin. Mas é preciso não estar preso às suas necessidades imediatas, é preciso se dar um pouco de dignidade de imaginar para encontrar essa vida imensa. Os prisioneiros da Sibéria que se recusavam a admitir culpa, geralmente nobres, eram os que mais sofriam com a própria condição.
É possível argumentar que Dostoiévski considerava a esperança como algo essencial para aguentar os tormentos da prisão e, mais genericamente, os tormentos da vida. O peso da condição dos prisioneiros era aliviado pela mera vontade de ver as coisas melhorarem, seja de apanharem menos, ou de a comida da prisão melhorar, ou mesmo contra todas as possibilidades, de se ver livre novamente. Eles sabiam e tinham noção de quão ruins as coisas eram — difícil ignorar uma chibata nas costas — mas isso não precisa automaticamente transformar a pessoa em um escravo cínico das próprias circunstâncias.
Se a Rússia do século XIX é muito distante, pense no caso de Ross Ulbricht, que em 2013 foi preso por, dentre outros, distribuição de entorpecentes, conspiração para cometer lavagem de dinheiro, traficar documentos e invadir computadores. Olhando essa lista, pode-se imaginar uma figura controversa, mas Ulbrich na realidade só fez uma coisa: criou o Silk Road, um mercado negro online anônimo. Sem sequer entrar no mérito de anonimidade da moeda padrão do site (Bitcoin), o único crime real foi permitir comércio anônimo, de flores a armas, nada mais.
Ulbricht foi condenado à prisão perpétua em 2015.
Dez anos depois, no segundo dia do ano de 2025, lá estava sendo perdoado por Donald Trump por causa de uma negociação que o homem laranja fez para conseguir apoio do Libertarian Party. Por causa das ações de sua mãe, Lyn Ulbrich, que inicialmente se encontrava sozinha contra nada menos que o governo americano, Ulbrich conseguiu sair da prisão sem sequer que Trump precisasse tomar conhecimento dos detalhes da história (inclusive, de acordo com Lyn ele parecia acreditar que Ross era um traficante ou usuário de drogas). Não há dúvidas de que o perdão de Ross Ulbricht foi a maior conquista da história do LP.
Em um discurso no Freedom Fest em junho deste ano, Ulbrich disse que continua recebendo o conselho para deixar o passado para trás, seguir a vida e esquecer a prisão, mas não consegue:
Não posso esquecer por onde passei, as coisas que vi ou os homens que ainda estão lá.
Até hoje, diz Ulbrich, “prisioneiros são a escória da sociedade,” e “a maneira como os tratamos revela quem nós somos”. Logo no primeiro relato de prisão, Ulbricht nos faz colocar em perspectiva o quanto temos de sorte de poder comer comida minimamente decente. Não precisa ser a melhor das comidas, mas só de não ser comida de prisão, que causou dores estomacais e nos nervos, temos sorte. Prisioneiros fazem diariamente escolhas que seriam excruciantes para qualquer pessoa livre.
E não é como se não houvesse o sadismo vindo com abuso de poder de guardas da mesma forma que na Sibéria. Cada dia tinha sua dose de humilhação e desumanização. Ter consciência de que ele foi condenado pela vida toda e iria, como várias pessoas que conheceu nesses 12 anos, envelhecer e morrer em cárcere tão horroroso, não o impediu de ter esperança. Ulbricht termina o discurso falando que, para ser um país genuinamente livre, até os prisioneiros, a escória da sociedade, devem ser tratados com dignidade e respeito.
Mais do que a esperança de Ross, que sempre aparecia em fotos sorrindo e com uma atitude positiva, o que surpreende ainda mais é a esperança de sua mãe. Já uma senhora idosa, Lyn não se deixou ser esmagada pelo “pragmatismo” cínico frequentemente disfarçado de realismo. Que mãe não entraria em desespero com uma situação dessas? Aparentemente, Lyn Ulbricht, tendo muita fé e acreditando em fazer propaganda do caso de seu filho por mais de uma década até um milagre acontecer.
Essa história se repete mais e mais vezes. Milagres acontecem o tempo todo, mas como Albert Camus fala em O Homem Revoltado, “a miséria desvia o rosto das dolorosas imagens da felicidade”. E o que nos leva a recusar essa contemplação de beleza e bênção?
O Mapa do Desespero
De acordo com Pedro Sette-Câmara em seu excelente curso O Mapa do Subsolo, podemos definir a imagem literária do subsolo como a ideia de “manter posição de vitória moral quando se está na pior”. Como seria se Miss Lonely se rebelasse, dizendo “eu queria perder tudo mesmo”? Ou então, como a ideia citada por Sette-Câmara no curso de que “o que vem de baixo não me atinge”, se colocando acima das regras sociais, se considerando um indivíduo tão infinitamente diferente e especial ao ponto de universalidades serem aplicáveis para os outros, mas não para si?
O momento de percepção de uma verdade chocante sobre nós mesmos, algo que inevitavelmente acontecerá, cria uma tendência a renegar tudo que aconteceu antes como uma ingenuidade, e correr em direção ao concreto cinismo. Consciente ou inconsciente, isso é apenas um mecanismo de defesa. A falta de esperança nos faz criar uma persona, uma “hipocrisia” (termo do curso) onde criamos desejos falsos que seguem o caminho confortável de não confrontar de verdade o problema.
Um grande exemplo do caminho para o subsolo é o masoquismo. Não necessariamente o masoquismo literal, mas sempre buscar algo que te machuca meramente por existir. A pessoa presa nisso acaba desejando apenas o que não consegue ou não pode ter, ignorando aquilo que já tem. É fácil pensar em termos de relacionamentos, afinal “se você só consegue desejar a pessoa que nunca vai ter, nunca vai desejar a pessoa que você tem”, mas isso se aplica a mais esferas da vida.
Tudo se torna uma espécie de duelo. Você precisa batalhar com o resto do mundo, necessariamente, para alcançar aquilo que deseja, porque um único objeto incita desejo em vários outros, e só aquilo e nada mais vai te satisfazer. É fácil de ver isso em carreirismos, onde a vergonha pela própria inutilidade em algo supostamente mais substancial é maquiada com produtividade em outros aspectos da vida.
Mencionado no curso, o poema Tabacaria, de Fernando Pessoa, resume o estado de espírito subsolesco:
Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
No livro O Desespero Humano (também conhecido como Tratado do Desespero e The Sickness Unto Death no inglês), Soren Kierkegaard trata a sensação de desespero da pessoa completamente inserida no mundo de possibilidades, mas que fica paralisada diante de tantos caminhos diferentes, não escolhe nada e acaba não fazendo nada. Com a percepção de que a sua própria situação é muito pior do que você imaginava e o abandono das esperanças, acontece um movimento tipicamente subsolesco, de tentar descobrir quem está “na pior” nessa situação e enxergar tudo como um duelo onde os outros, que te carregaram até onde você está agora, estão numa posição de vantagem.
Se você está na pior, você entra em desespero diante da sua própria situação. E, se você acha que está em um duelo, pensa que está à mercê de um adversário que às vezes só existe na sua própria cabeça — é uma questão de óptica. Estando em um duelo, cheio de orgulho, e vendo o adversário oferecendo ajuda, você cospe na mão que te estendem, porque é claramente uma humilhação. Duelos se resolvem na morte. Diz Kierkegaard:
E se então fosse possível que no céu Deus com todos os seus anjos lhe oferecesse a libertação, recusá-la-ia: tarde demais! Dantes teria dado alegremente tudo para se ver livre dele, mas fizeram-no esperar, agora é tarde demais, prefere arrebatar-se contra tudo, ser a injustiçada vítima dos homens e da vida, permanecer aquele que vela por guardar à vista o seu tormento para que não lhe tirem — caso não, como comprovar o seu direito e convencer-se a si próprio?
Kierkegaard assume (e todo instinto que tenho me diz que é uma assunção correta) que o maior sofrimento por que passamos é causado por nós mesmos. Como um médico da alma, o dinamarquês diagnostica nossa doença espiritual auto-imune, nossa angústia, nosso sofrimento, nosso desespero. O Desespero Humano pode ser sintetizado em uma passagem bíblica. Na carta aos Romanos, São Paulo diz:
Miserável homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?
E o dinamarquês argumenta, basicamente, que não há escapatória sem Deus. Se não temos consciência da nossa condição de desespero, não temos consciência de nada profundo sobre nós mesmos, o que em si é uma forma de desespero. Ao mesmo tempo, se temos conhecimento pleno do nosso desespero (boa sorte, já que pecamos até de maneira inconsciente), não resta nada que não entrar em mais desespero ainda: como vamos sair disso algum dia?
A capacidade de podermos entrar em desespero e, mais ainda, falar de desespero, é para Kierkegaard exatamente o que coloca humanos como animais acima dos outros. Que animal selvagem vai sentir angústia? Os mecanismos de defesa que usamos para não fazer essa análise honesta de nós mesmos variam: distrações, isolamento, materialismo, fantasia, enxergar problemas como fatalidade, enxergar problemas como evidências da própria perdição. Há outro animal que sofra de algum desses? Esse desespero que nos joga no buraco também é o que nos permite tomar consciência de Deus.
O mais profundo nível de desespero é, para Kierkegaard, quando o indivíduo se apega apaixonadamente ao próprio desespero e começa a ver o próprio sofrimento de maneira romântica. Chega a pensar que “esse espinho enterrado na carne (…) penetra demasiado fundo para poder ser eliminado por abstração”. O sofrimento físico causado pelo desespero — e o subsolo causa, também, problemas fisiológicos — é grande o suficiente para não ser solucionável pela mera palavra, o mero pensamento ou a mera atitude. Mais do que isso, esse espinho é troféu que prova sua condição única de sofredor:
não! ele quer, a despeito desse espinho ou desafiando a sua vida inteira, ser com ele próprio, incluí-lo e como que tirar insolência do seu tormento. Porque admitir uma possibilidade de auxílio, sobretudo por esse absurdo de que a Deus tudo é possível, não! não! isso não quer. Nem por nada no mundo procurá-lo em outrem, preferindo, mesmo com todos, os tormentos do inferno, ser ele próprio a gritar por socorro.
Então “lança-se com toda sua paixão nesse sofrimento” e, ainda que “fosse possível que no céu Deus com todos seus anjos lhe oferecesse a libertação”, ele recusa. É tarde demais, ele pensa, não há salvação. E mais, o próprio sofrimento pode ser um espetáculo para os outros. Ele é a vítima absoluta do mundo, dos outros ou de si mesma, vítima das circunstâncias da vida, dos ventos que o carregaram à situação horrível e além da salvação na qual ele se encontra. Não lembro onde, mas vi certa vez alguém dizer que orgulho era o pecado de quem pensa demais em si, e há algo a pensar sobre isso: talvez seus pecados conscientes e inconscientes não sejam tão espetaculares assim.
Lembro instantaneamente de dois versos da música “Lonesome Day Blues”, de Bob Dylan.
The road’s washed out — weather not fit for man or beast! Funny how the things you have the hardest time parting with are the things you need the least
A pergunta que não cala é: por que o homem é o único animal que se causa isso? Por que ele é o animal à parte? Porque ele é o único animal capaz de conscientemente pecar e trair sua consciência. Deus perdoa nossos pecados, mas, orgulhosos, pensamos que sua perfeição está distante da realidade humana, então nos torturamos por nossas falhas. Cuspimos nas mãos estendidas e nos fechamos para qualquer possibilidade de cura, com inveja, vergonha e, em particular, orgulho. Nos escandalizamos diante da possibilidade de uma vida cristã (que nem precisa ser caricata) e escolhemos voluntariamente a ignorância da salvação.
Nós temos a opção de escolher sermos frios ou quentes, e talvez seja o pior dos pecados escolher a mornidão. Em Apocalipse 3, temos:
Conheço as obras que você realiza, que você não é nem frio nem quente. Quem dera você fosse frio ou quente! Assim, porque você é morno, e não é nem quente nem frio, estou a ponto de vomitá-lo da minha boca.
Ao mesmo tempo que sofreremos com orgulho e desespero ao manter a postura autopiedosa diante de Deus e sofreremos com vergonha e desespero ao tentar nos transformar em uma caricatura, também não podemos ficar indiferentes.
A ideia de Kierkegaard aqui é destruir qualquer escapatória do desespero. Uma vez que você percebeu a sua existência, não há volta. A boa notícia é que ele estaria lá com ou sem a sua consciência mas, agora que foi revelado, há algo para ser feito. Mas o que fazer, já que é impossível o homem se salvar sozinho? Ter fé e estar disposto a ser amado por Deus em vez de rebelar-se. O único caminho para sair da floresta do desespero é atravessá-la.
Talvez essa ideia seja resumível em quatro versos de Leonard Cohen:
Ring the bells that can still ring Forget your perfect offering There is a crack in everything That’s how the light gets in
Esperança
A ideia de que eu poderia ser a pessoa a dar esperança a algumas pessoas e mostrar que a beleza é real, que não é ilusória e que prova que a bondade e a felicidade são possíveis aqui na Terra — e não apenas no Céu ou nos seus sonhos — acho que é muito mais importante do que o anarquismo ou qualquer tipo [de objetivo] político. Isso é muito importante, mas vem depois. Primeiro, é preciso ter essa concepção de que as coisas podem ser boas, porque, caso contrário, pelo que você está lutando por liberdade? Liberdade para ser miserável? Isso não existe. — Michael Malice
Foi a ideia de esperança que cresceu em mim durante os mencionados anos de 2021 a 2023, coincidentemente os mais difíceis de minha vida, ao menos materialmente falando. O período com mais decisões estúpidas, feitas sem devida consideração, mas que ainda assim me fizeram chegar em um lugar objetivamente melhor do que aquele no qual eu me encontrava antes.
O autor da citação que abre essa seção, anarquista, publicou no começo de 2023 o livro The White Pill, que conta como a União Soviética, um verdadeiro império do mal, era muito pior do que as “pessoas sérias” da época imaginavam, e ainda assim foi derrubada contra as expectativas de praticamente todas as mesmas “pessoas sérias”. Um diálogo entre o chanceler da Alemanha Ocidental Helmut Kohl e o líder do partido polonês Solidariedade Lech Walesa no dia 8 de novembro de 1989 explica bem como eram as expectativas:
Walesa tinha visto quão rapidamente a Polônia havia passado de um Estado totalitário para os primeiros passos de uma democracia parlamentar liberal. “Sabe”, disse Walesa, “o Muro [de Berlim] vai cair em breve. Não sei quando, mas realmente acho que será muito em breve, talvez em semanas.”
Kohl riu na cara dele. “Você é jovem e não entende algumas coisas”, disse a Walesa, que tinha quarenta e seis anos. “Há longos processos históricos em andamento, e isso levará muitos anos.”
Ambos estavam errados.
O fato de isso ter acontecido um dia antes da queda do Muro de Berlim é uma das coisas que me sugere que Deus tem senso de humor.
O ponto do livro é mostrar que o progresso em direção ao bem, ou no mínimo à vitória, é incremental. Nenhum indivíduo, sozinho, consegue ver todas as maneiras em que as coisas estão constantemente melhorando, e quanto pior for a situação, mais difícil é reconhecer que ela não é eterna. Como Malice diz pouco antes de concluir sua obra, “É possível que aqueles de nós que lutam pela dignidade da humanidade percam sua batalha, mas é impossível que nós sejamos destinados a perder nossa batalha.”
Agora eu, pessoalmente, não estou falando de uma batalha com outra pessoa ou sequer com uma ideologia, mas contra nossa própria tendência autodestrutiva que nos afasta de Deus. No incrível The White Pill, Malice mostra que é possível ter esperança no nível político, que seria a redenção de uma sociedade inteira, e não foram poucos os mártires dessa vitória. Em nível individual, algo como Recordações da Casa dos Mortos ou a histoŕia de Ulbricht sugerem o mesmo.
Em “Like a Rolling Stone”, a compreensão da situação trágica da Miss Lonely não vem apenas com o choque duro de realidade, mas com a possibilidade de redenção. Isto que o Bishop Barron alterou em minha percepção. Nas palavras do próprio Dylan,
When you’ve got nothing, you’ve got nothing to lose You’re invisible now, you’ve got no secrets to conceal How does it feel?
O tema desses dois versos, que alteram completamente a percepção de todo o resto dos seis minutos e meio, foi expandido no mesmo álbum desse clássico, com a menos clássica “Queen Jane Approximately”. Uma vez que você está na pior, no buraco, e não consegue fazer muito sozinho, você tem duas opções: ou se revolta com o rival que pode ser imaginário, ou admite querer melhorar, que não quer se sentir mal. Ou você cospe a pessoa que te estende a mão, ou você aceita sua ajuda.
No mesmo sentimento de seu discurso no Grammy de 1991, com que abri esse texto, Dylan abre “Queen Jane” perguntando:
When your mother sends back all your invitations And your father to your sister he explains That you’re tired of yourself and all of your creations Won’t you come see me, Queen Jane?
Não sabemos qual a resposta da Queen Jane, mas se ela não consegue enxergar as dinâmicas humanas senão como duelos, irá ver essa proposta como uma ofensa vinda de uma pessoa tão falha e tão pecadora quanto ela, ignorando que aceitar a proposta pode ser a salvação para a vida de ambos. Por outro lado, se a rainha é incapaz de abrir mão de seu sofrimento, preferindo ser “a injustiçada vítima”, não importa sequer que a mão estendida seja de Deus.
O que Dostoiévski viu na prisão foi horrível. O que Ulbricht viu na prisão também. E ainda assim os dois se apegaram à esperança, particularmente impressionante quando se trata de uma prisão perpétua. Nada me tira da cabeça, ao pensar nesses assuntos, que nos apegarmos às experiências negativas mais do que às positivas não passa de desespero, de “hiperconsciência” do nosso pecado. Mas, seriam mesmo as nossas experiências negativas de alguma forma mais importantes? Camus diz que
Parece que as grandes almas, às vezes, ficam menos apavoradas com o sofrimento do que com o fato de ele não durar. Na falta de uma felicidade inesgotável, um longo sofrimento constituiria ao menos um destino. Mas não é assim, e nossas piores torturas um dia chegarão ao fim. Certa manhã, após tanto desespero, uma irreprimível vontade de viver vai nos anunciar que tudo acabou e que o sofrimento não tem mais sentido que a felicidade.
Se tivemos a esperança a nível da sociedade inteira, podemos ter a esperança no nível individual, que seria a redenção. Da mesma forma que a URSS veio a cair “gradualmente e então repentinamente”, para furtar Hemingway, podemos ter a mesma virada de chave em nossas vidas redimindo nossos erros aos poucos, e tudo começa com a iniciativa de não fazer deles um espetáculo, aceitando perdão divino até quando não vemos que precisamos dele.
É possível ter esperança, é possível se redimir, só precisamos nos abrir a essa possibilidade.